Sujeitos
2009/01/26
Não é que houvesse muito a dizer. Palavras, afinal, são nada mais do que sons concatenados. Fato era que falaria não de junção, mas de separação.
Telefone nas mãos, frio na barriga. Aperta o oito, o sete, o cinco, o sete, quatroquatroquatro, o dois. Dois toques. Dois alôs. Duas orações sem sujeito de dois sujeitos. Desliga.
Trataria pessoalmente, como nos velhos tempos. Os pés descalços no chão frio caminham. Portas, dividindo o espaço responsáveis como sempre, abre, fecha,segue,abre,fecha, em frente, para, pensa, sente, tensão, sabor, bate, tosse. Sorri, sorriem
(ecos falsos de humanidade varrida)
entra, tranca, cala.
— Tá tão quieto. Que acontece?
— Pensando… tem algo que precisa
— Sorvete? É pistache.
— Sim, é muito bom.
— Que dizia?
— Dizia que… Não dá mais.
— Não dá mais?
— Nós.
Sujeito revelado. O sujeito trás a verdade, tira sua relatividade absoluta e o posiciona de maneira que não há discussão, nem evasão, nem omissão que mudem a história que vem a seguir. Soubesse o sujeito do peso em suas costas faria oração para se ocultar, para sumir. Sujeito em paz, solitário, pesado e pesaroso; que entre, porém, a ação.
— Acabou. Eu não te quero mais. Não te tolero. Nem mesmo te sinto. Passou, foi, já era.
— Porque?
— Decidi assim. Não me force a listar adjetivos. Vou-me, e você, que fique.
Foi. Ficou. Fim.